Lar, Doce Lar

            Fazia tempo que chovia sem parar na pequena cidade. Sentindo falta de tudo que lhe lembrasse em casa, ela sentia, principalmente, a falta do amigo próximo. Sem telefonemas, cartas ou presença física, Lúcia sabia que não agüentaria muito tempo ali.

            – Vem pra dentro menina! – chamava a avó, todo dia, pontualmente às 5 da tarde. Era hora do bolo de milho e do chá de camomila. Lúcia sabia que não pararia de chover tão cedo, mas assim que acordava, corria, dia após dia, pra varanda, esperando estiar e a luz do sol voltar.

            – Lucinha, pare de ficar pegando sereno o dia todo, minha filha. Qualquer hora dessas você cai de cama. Parece até que espera por alguém… – Dona Ilda insistia. Mas não havia muito o que fazer para conseguir que sua neta falasse, ao menos um pouco, sobre seus pensamentos. (mais…)

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Published in: on junho 21, 2009 at 3:49 pm  Deixe um comentário  
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Eco

             Fazia tempo que não me sentia tão quieto. Às vezes soava até como um silêncio ensurdecedor. Olhava todas aquelas pessoas falando e articulando, como se fossem animais sem presença alguma de sentidos racionais ou futuros geradores de problemas.

             – Quanto tempo pretende ficar aqui? – alguém me perguntou assim que cheguei.

Se soubesse a resposta não estaria em um lugar como esses. As pessoas continuavam a andar pra lá e pra cá. Sons e mais sons. A flor que se despetalava, o carro que ia embora sem chance de retorno, aqueles malditos vidrinhos chacoalhando, marcando quase a hora certa de me tirarem a memória novamente.

           – Você pode vir com a gente. – Você quer mais um pouco? – É só distração!

          Não cansam de tentar resumir todas as emoções em palavras sutis e embaraçosas? Eu prefiro continuar aqui sozinho. No meu canto preferido, que adotei como sendo meu novo espaço de meditação. Como conseguir ficar tanto tempo sem idéia de solidão em um? Em um sim, porque ficar em solidão a dois é muito fácil. Eu e eu mesmo. Eu e minhas barulhentas idéias. Pelo menos aqui elas estão sendo domadas. Só até o próximo chacoalho de vidrinho, eu sei, mas de curto em curto alívio consigo me livrar do barulho que me atormenta depois da cerca.

          – Pensei em fugir outro dia sabia? – Eu também pensei. Quem não pensa quando chega aqui? Vontade de controlar tudo de novo, de falar, de explicar, de esclarecer… (mais…)

Published in: on junho 21, 2009 at 3:27 pm  Deixe um comentário  
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Platão e o Belo

Foto: reprodução/internet

Foto: reprodução/internet

          Sabe-se relativamente a respeito das teorias de Platão à cerca do mundo em que vivemos e sobre sua idéia de reminiscência. Segundo ele, o mundo teria sido divido em duas partes: o mundo sensível – cercado de caos, ruínas, sombras e desastres; e o mundo inteligível – constituídos de belas formas, de Verdade, autenticidade e idéias puras. Trilhando no caminho dessas teorias, chega-se à contraposição entre corpos sensíveis e corpos ideais, onde ambos se depararam com a idéia pertinente do Belo.
          Platão não se esquiva ao afirmar, que todas as matérias que definimos como belas em nosso mundo são apenas imitações de corpos já existentes no inteligível. Acreditando também, que assim como possuímos um padrão “ideal” de belo hoje, ele só acontece porque já o presenciamos anteriormente, durante uma passagem pelo mundo superior. Portanto viveremos eternamente, em saudação e ligados à beleza que presenciamos certa vez, e que temos guardada em nosso subconsciente. Devido a essa “lembrança” e eterna saudade, nossas almas vivem inquietas, pela possibilidade de já termos contemplado a real Beleza.
          O filósofo que é conhecido pela teoria do “amor platônico”, volta a citar o sentimento divino, como o único capaz de elevar nossos espíritos desse mundo, e nos distanciar das coisas sensíveis e grosseiras que aderimos por aqui. Somente o “caminho místico” poderá nos mostrar a verdadeira direção à concepção do Belo, e nos fazer compreender o amor sublime. Platão explica que os homens ao virem para as sombras, distanciaram–se da essência do amor, e da razão para nos apaixonarmos. Nós, primeiramente, nos apaixonamos pela beleza errônea, pela beleza física, e nos apegamos a ela. Se formos realmente seres superiores, logo veremos que essa beleza è digna à ruína, e nos apaixonaremos verdadeiramente pela beleza da alma, que essa assim ascenderá e produzirá frutos de conhecimento. Após a retomada da verdadeira idéia de Beleza, os amantes tendem a ficar abismados com tamanha perfeição, e tendem a extrair e usufruir dos encantos e sentimentos puros que dela emanam. Foi com o decorrer de todos esses fundamentos, que Platão chegou ao entendimento da relação paralela entre Verdade, Beleza, Bem e Sentidos.
          Tende ao nosso mundo, o sentido da visão ser o principal “captador“ das formas de beleza, sendo que, como o filósofo grego mesmo afirmou uma vez, nossos sentidos são plausíveis de engano, acreditando-se que a visão pode sim enxergar a beleza física, mas jamais enxergará a beleza da sabedoria que a alma possui.