Lar, Doce Lar

            Fazia tempo que chovia sem parar na pequena cidade. Sentindo falta de tudo que lhe lembrasse em casa, ela sentia, principalmente, a falta do amigo próximo. Sem telefonemas, cartas ou presença física, Lúcia sabia que não agüentaria muito tempo ali.

            – Vem pra dentro menina! – chamava a avó, todo dia, pontualmente às 5 da tarde. Era hora do bolo de milho e do chá de camomila. Lúcia sabia que não pararia de chover tão cedo, mas assim que acordava, corria, dia após dia, pra varanda, esperando estiar e a luz do sol voltar.

            – Lucinha, pare de ficar pegando sereno o dia todo, minha filha. Qualquer hora dessas você cai de cama. Parece até que espera por alguém… – Dona Ilda insistia. Mas não havia muito o que fazer para conseguir que sua neta falasse, ao menos um pouco, sobre seus pensamentos.

            Já passavam das 8 da manhã e Lúcia ainda continuava na cama. Fora de sua rotina nas últimas semanas, ficar na cama até depois das 6 não era uma coisa muito comum. Mais tarde, perto da hora do almoço, D. Ilda viria a saber o motivo do sono prolongado.

            – Vó! Vó! Você não imagina com quem eu sonhei essa noite passada. Ah, Vó! Que saudade…

            – Com quem menina?

            – Com o Mauro, vó. Lembra-se dele? Meu amigo, Maurinho, que estudava comigo quando pequeno. Você sabe quem é, vó. Ele vivia lá em casa, lembra?

            – Lembro, minha filha, lembro. Mas me conte do sonho…

           A menina dançava de felicidade pela cozinha, falava tão rápido que a vó mal conseguia acompanhar suas silabadas.

         – Ele tava aqui, vó. Ele chegava de mala e tudo pra passar o resto das férias com a gente. Tava tão bonito o dia, era final de julho já, e a chuva finalmente tinha parado. Ele trazia um presente pra mim, vó. Ele tava tão lindo, com aquele mesmo cabelo preto, escorrido, caindo no olho. Era o meu Maurinho…

           Antes que a avó pudesse dizer o quão feliz estava por ver um sorriso de novo no rosto de sua neta, a feição de Lúcia mudou.

            – Pena que foi só um sonho. A chuva continua caindo e eu não tenho sem sinal do Maurinho…

            Na última semana de férias, a menina estava começando a ficar feliz para voltar para casa, para seu colégio e para Mauro. Amigos desde os 5 anos de idade, os dois nunca haviam passado mais que poucas semanas sem se falar. Já faziam dois meses e nenhuma das prometidas cartas haviam chegado. Lúcia levantou cedo, o café quentinho, preparado pela vó Ilda, esperava já pronto na mesa. Meio sonâmbula ainda, nem se dera conta de olhar pela janela e ver o dia que estava começando. Depois dos dois primeiros goles, Lúcia olhou espantada para a avó.

            – Ave Maria, vó! A chuva parou! 

            Antes que D. Ilda pudesse responder à felicidade da neta, a menina já estava parada em frente ao portão sorrindo ao novo sol que nascia.

Foto: reprodução/internet

Foto: reprodução/internet

            Naquelas férias de final de julho, Mauro não apareceu. Mas mesmo após dois meses sem notícias, Lúcia sorria feliz, pois sabia que com a volta do sol ao sitio de D. Ilda, era sinal de voltar pra casa, de voltar para o seu amigo, Maurinho.

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Published in: on junho 21, 2009 at 3:49 pm  Deixe um comentário  
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