Eco

             Fazia tempo que não me sentia tão quieto. Às vezes soava até como um silêncio ensurdecedor. Olhava todas aquelas pessoas falando e articulando, como se fossem animais sem presença alguma de sentidos racionais ou futuros geradores de problemas.

             – Quanto tempo pretende ficar aqui? – alguém me perguntou assim que cheguei.

Se soubesse a resposta não estaria em um lugar como esses. As pessoas continuavam a andar pra lá e pra cá. Sons e mais sons. A flor que se despetalava, o carro que ia embora sem chance de retorno, aqueles malditos vidrinhos chacoalhando, marcando quase a hora certa de me tirarem a memória novamente.

           – Você pode vir com a gente. – Você quer mais um pouco? – É só distração!

          Não cansam de tentar resumir todas as emoções em palavras sutis e embaraçosas? Eu prefiro continuar aqui sozinho. No meu canto preferido, que adotei como sendo meu novo espaço de meditação. Como conseguir ficar tanto tempo sem idéia de solidão em um? Em um sim, porque ficar em solidão a dois é muito fácil. Eu e eu mesmo. Eu e minhas barulhentas idéias. Pelo menos aqui elas estão sendo domadas. Só até o próximo chacoalho de vidrinho, eu sei, mas de curto em curto alívio consigo me livrar do barulho que me atormenta depois da cerca.

          – Pensei em fugir outro dia sabia? – Eu também pensei. Quem não pensa quando chega aqui? Vontade de controlar tudo de novo, de falar, de explicar, de esclarecer…

               Depois dos primeiros dias, a calma se instala. Quando passo muito tempo sem meu silêncio retirante, fico nervoso ao ponto de querer beber água sem parar. Como se o líquido que ali reside fosse isentar a origem das falas que nascem a partir de mim. Mas a sede é tanta, que às vezes acho que vou me afogar. E sempre chega alguém a me parar.         Outro dia me levaram pra nadar. De tanto insistirem, sorrirem e relatarem a “maravilhosa sensação”, resolvi experimentar. Outra chance de calar os pensamentos. Infelizmente, a água daquele recipiente fazia o mesmo efeito que a água do copo, fonte de fuga nos meus momentos mais apreensivos. Mas tentei relaxar.

            – Por que você está aqui? – alguém mais próximo tentou no quinto dia. – Está melhorando? – como se a minha certeza ou as minhas palavras fossem lhe trazer a esperança cultivada na mente de todos aqui.

            – Eu só não quero ficar pra sempre… – e eu que prezo meu silêncio magnífico acima de todas as palavras, me calei e continuei a vagar pelo verde.

            Não é óbvio que se soubesse como calar essas vozes dentro da minha cabeça já teria saído em meio aquele portão lá no alto? Eu saberia fazê-las parar e iria conseguir me controlar. Enquanto isso espero de quatro em quatro horas o chacoalho do meu alívio. E continuo após deles no meu momento de paz quietante, que me faz, calmo, esperar por um automóvel que um dia ainda irá voltar.

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Published in: on junho 21, 2009 at 3:27 pm  Deixe um comentário  
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